Repercussões sobre a Família, a Sociedade e as Nações

Acadêmico Edward Tonelli *

Nas últimas décadas, vêm ocorrendo acentuados avanços tecnológicos nas áreas da eletrônica, computação, robotização, comunicações, inclusive via satélite, dentre outras. A presença de fax, do computador e de outros dispositivos tecnológicos transformaram a vida das pessoas, das famílias e das empresas. Despontou o sério problema da globalização, que há 10 anos parecia ser a solução dos problemas econômicos mundiais. Ledo engano. A globalização tem como características essenciais a alta produtividade, a alta qualidade dos produtos, o baixo custo e o elevado grau de consumo. Infelizmente, em decorrência desse processo, adveio uma conseqüência nefasta e, até certo ponto, inesperada que foi o desemprego estrutural. Os teóricos da globalização imaginavam que as novas tecnologias fossem capazes de absorver ou de evitar o desemprego estrutural, que em alguns países evoluídos da Europa, como Alemanha, França, Itália e Inglaterra assume proporções alarmantes. Na Inglaterra, país que na atualidade passa por bons momentos econômicos, surgiu uma aldeia habitada pelas vítimas do desemprego estrutural, muitas delas com salário-desemprego, e que praticam a economia negra ou informal. São grupos de técnicos de diferentes níveis superiores, como médicos e advogados e de profissionais de outras áreas, como mecânicos, eletricistas, barbeiros e outros, que trocam serviços entre si, com emissão de vales, sem circulação de moeda, à semelhança do que já ocorreu na Idade Média. Na Argentina, outra vítima da globalização desenfreada e de erros políticos imperdoáveis, também se deu o mesmo processo recentemente.

Há necessidade premente de uma revisão do processo globalizante e neoliberal que está destruindo os empregos e criando sérios problemas para a estabilidade das famílias e da sociedade, e com sérias repercussões sobre a infância e a adolescência. Está faltando o aspecto humanitário no processo globalizante, conforme se tem discutido no Fórum Social Mundial realizado no Brasil, em Porto Alegre, pela terceira vez consecutiva( 2001, 2002 e 2003 ) com participação de dezenas de milhares de representantes de todo o mundo. O Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, em janeiro de 2003, na mesma ocasião do III Fórum Social Mundial , parece ter se sensibilizado com as repercussões deste, através da participação do Sr. Luis Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.

É evidente que o grupo dos sete grandes, o G7, terá que proceder a uma revisão do avanço da globalização e de suas drásticas conseqüências, uma vez que já está ocorrendo forte resistência ao referido processo dentre as classes trabalhadoras e mesmo empresariais de muitos países desenvolvidos, como Itália, França e Alemanha. Infelizmente , as novas tecnologias estão a serviço, sobretudo, da área econômica e de um novo senhor, o mercado. Assim sendo, há uma permanente busca de seus melhores índices ou indicadores, mas todo esse processo se apresenta como aético e imoral, pois alija o homem e desestabiliza as áreas sociais e as nações.

Osmar de Almeida Santos5,6, psiquiatra brasileiro radicado em Londres há mais de 25 anos , vem estudando a evolução do trabalho através dos tempos. Em seus livros, “O Pão Nosso –A herança emocional do trabalho” 5 e “O Futuro do Trabalho na Era Tecnológica – Em Busca do Emprego Perdido” 6 , editora TextoNovo, RJ, ambos de 1997, estão previstas as seguintes conseqüências da globalização, em futuro bem próximo: fim do emprego estável e da aposentadoria, crescimento acentuado da área de serviços, curtos períodos de atividade no trabalho, alternados com longos períodos de desemprego e necessidade dos trabalhadores jovens de se prepararem para uma nova realidade, na qual terão de assumir três ou quatro tipos de atividades diferentes durante o seu ciclo de trabalho. Como se vê, todos terão que se adaptar a uma nova realidade de mercado, totalmente diferente daquela de alguns anos atrás. Ocorre que em todo o mundo já vem ocorrendo, conforme assinala a OIC (Organização Internacional do Trabalho ) grandes períodos de interrupção da atividade no emprego, porque os trabalhadores já não estão suportando as novas condições de trabalho, que se caracterizam pela busca constante de maior produtividade, pela instabilidade do emprego, pelo estresse e pela ausência de descanso ou de férias programadas. O horizonte que se delineia não é nada animador, a curto e médio prazos. Nesse contexto pouco favorável, os pais convivem pouco com seus filhos, as famílias ficam instáveis e se desfazem, advindo daí repercussões negativas que recaem sobre todos , sobretudo sobre as crianças e os adolescentes.

Outro aspecto interessante da globalização menciona Ronaldo Fonseca 1, sociólogo brasileiro que reside em Portugal, membro da equipe do “Le Mond Diplomatique”. Em seu recente livro “Marxismo e Globalização” , publicado naquele país, em 2002( ed. Campo das Letras, Porto, 227 p), Fonseca comenta que o mercado está totalmente distorcido em todas as bolsas de valores do planeta, pois segundo o analista econômico francês, François Chesnais, somente 8% do dinheiro circulante está relacionado com os setores produtivos, enquanto que 92% , ou seja, a quase totalidade diz respeito ao capital totalmente especulalivo. Este é o atual senhor dono do mundo, que vem infernizando a estabilidade econômica e financeira de vários países, como o nosso, e que desestabilizou recentemente a Argentina, com a finalidade única e exclusiva de saciar a sanha de alguns especuladores internacionais. Eles ficam o tempo todo de plantão, aguardando o momento mais oportuno para atuarem, sob o total apoio do Fórum de Davos, do qual muitos são membros permanentes.

Assim não pode continuar, pois o mundo não resistirá. Tem que surgir uma nova ética e uma nova moral, no que tange às relações do trabalho, no contexto, evidentemente, de uma globalização humanizante . Felizmente já se percebe em curso e a nível mundial, segundo Houtart 4 ( fevereiro de 2003) , um processo de globalização da resistência em relação aos princípios emanados do Fórum Econômico de Davos. Ademais, conforme preceitua a Carta de Princípios do Fórum Social Mundial 2 realizado em Porto Alegre, no período de 23 a 29 de janeiro de 2003, as alternativas propostas nesse Fórum contrapõem-se ao processo atual de globalização, uma vez que visam privilegiar, sobretudo, os princípios de uma globalização solidária, com amplo respeito aos direitos humanos universais, ao meio ambiente, à justiça social à igualdade e à soberania dos povos.

Segundo Ronaldo Fonseca 1 os povos do mundo têm que lutar contra esse estado crescente de “darwinismo social”, que vem arrasando a estabilidade dos cidadãos e de suas famílias, levando muitos indivíduos para as drogas, para a infelicidade. Muitas vezes, lamentavelmente sem retorno, pois, quase sempre, essa situação escapa do domínio da sociedade.

Por outro lado, devemos nos lembrar que as nações não devem subjugar seus cidadãos e suas famílias aos caprichos da economia, ou seja, não sacrificá-los por considerar a economia como um fim, mas sim como um meio ou ferramenta eficaz de se obter bons indicadores, sobretudo sociais.

Em nosso país, o processo globalizante que se apresentou como muito sedutor e até certo ponto irreversível, também deixou suas marcas como o desemprego estrutural, a instabilidade social e o aumento da dívida, dentre outras. O país detém, no momento, o 11 PIB mundial ( 510 bilhões de dólares ) e a 79 posição na área social. A dívida pública interna total gira em torno de 800 bilhões de reais e, a externa, por volta de 260 bilhões de dólares, sendo dois terços desta de responsabilidade das empresas. Atualmente, cada criança nascida no Brasil já nasce com a dívida em torno de R$ 4.600,00 (quatro mil e seiscentos reais ), que é a dívida interna de cada brasileiro.

Vários países evitaram problemas dessa natureza, fugindo da pressão do mercado e procedendo à lenta e progressiva introdução das novas tecnologias, ou simplesmente não as adotaram, de imediato, sabedores que eram de que as mesmas poderiam alijar o ser humano e causar instabilidade social. Já em outros países, grupos de pessoas se organizaram e recorreram a medidas simples e eficazes como a criação de moedas locais e de clubes de trocas de mercadorias e serviços, dentre outras. Essas medidas são, na realidade, não somente alternativas à globalização, mas representam, muitas vezes, preferências bem definidas para certos tipos de práticas de mercado e de tipos de sobrevivência, amplamente reconhecidas como muito pertinentes por Hazel Henderson 3, em seu livro “ Além da Globalização” ( Ed. Cultrix- São Paulo- 1999, 184 p ). Hazel é americana e autora de vários livros, conceituada futurista independente colunista internacional e consultora de desenvolvimento sustentável, bem como conselheira de vários Institutos e do Fundo Calvert de Investimento Social. Hazel recomenda uma nova ordem econômica mundial e considera o sistema financeiro internacional como um tipo de cassino, onde se joga com a felicidade dos povos e das nações.

Finalizando, gostaríamos de ressaltar que a revolução tecnológica ou pós-industrial trouxe muitos benefícios para o ser humano e que uma de suas conseqüências foi a globalização, com seus inquestionáveis avanços, mas, também, com suas inequívocas e desastradas conseqüências para as famílias, para a sociedade e para as nações. O mundo está em uma encruzilhada e vamos torcer para que os seus líderes tenham muito juízo e sensibilidade, porque todos esses problemas e soluções estão em suas mãos.

* Professor Emérito, Titular e Livre Docente de Pediatria da UFMG ( Aposentado ). Orientador do Curso de Pós-Graduação em Pediatria da UFMG. Membro do Conselho Acadêmico da SBP.

Bibliografia

1 -Fonseca R. Marxismo e Globalização. Ed. Campo das Letras, Porto , Portugal. 2002. 227 p.

2 - III Fórum Social Mundial. Porto Alegre, RS. Carta de Princípios do Fórum Social . Mundial. 23 a 29 de janeiro de 2003. 2 p.

3- Henderson H. Além da Globalização. Ed. Cultrix, São Paulo, 1999. 184 p.

4- Houtart F. A busca de alternativas. Revista -Fórum Social Mundial 2003.Edição Brasileira . Fevereiro de 2003. p. 12-13.

5- Santos O A. O pão nosso. A herança emocional do trabalho. TextoNovo. São Paulo. 1997. 157 p.

6- Santos O A. O futuro do trabalho na era tecnológica – em busca do emprego perdido. TextoNovo, São Paulo. 1997. 215 p.

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