Mesa Redonda: e os Nossos Jovens e sua Sexualidade?

COORDENADOR: Jayme Murahovschi             Data: 09/10/04
RELATOR: Antonio José de Amorim

PALESTRA: A SEXUALIDADE HUMANA DO RECÉM NASCIDO Á ADOLESCÊNCIA

PALESTRANTE: LULI MILMAN

Introduziu o tema falando de suas atividades e projetos que coordena e estão sendo desenvolvidos em favelas no Rio de Janeiro. Discorreu sobre as teorias da sexualidade de Sigmund Freud e suas interpretações. Disse que a criança (até aos dois anos) tem em suas necessidades básicas a alimentação como busca do prazer, o que caracteriza a fase oral da sexualidade. O bebê relaciona-se com o mundo fazendo um modelo de incorporação, de relacionamento com objetos externos (chupetas, mamadeiras, etc.).

Com o crescimento da criança, outras formas de interação com o mundo aparecem, surge a fase anal da sexualidade, onde as fezes são os objetos variados de troca com o mundo, o erotismo anal predomina. Com o controle dos esfíncteres, começam a surgir outras formas de trocas externas ao corpo.

Na terceira fase, denominada de fálica, a criança descobre o órgão sexual, apenas o falum, desconhece a vagina. O menino com medo do pai desiste do objeto de amor. A menina já se vê castrada, culpa a mãe por não ter o falum, desiste desse objeto de amor e busca no pai o falum que não tem e que pode ter, assim como o bebê. As feministas não gostam desta interpretação da teoria de Freud.

Dos 5 aos 12 anos a sexualidade das crianças passa por uma fase de latência, predomina a atenção para o trabalho em equipe, as atividades culturais seguem regras, obedecem a normas, a vida é em conjunto.

Com o desenvolvimento na puberdade, a criança faz uma re-visita ao complexo de Édipo, se reorganiza e entra no primado da sexualidade genital. As fases preliminares do ato sexual em si estariam todas inseridas nas fases sexuais anteriores. Concluindo assim o percurso sexual humano chegando ao auge da sexualidade com a sublimação, representada por criação, produção e arte.

A palestrante faz um breve resgate da história da criança, diz que no passado não era valorizada, a mortalidade infantil era elevada e que o conceito de adolescência surgiu após a segunda guerra mundial, com a necessidade das mulheres entrarem no mercado de trabalho, como força produtiva.

Disse que na época de Freud batia-se em criança com a maior tranqüilidade, hoje isso é proibido.

Falou sobre o valor da amamentação, antes era para que as crianças sobrevivessem, reforçou-se isso, acrescentando que as crianças também são mais felizes quando são amamentadas. Ressaltou que a mãe que não amamentou não deve ficar com sentimento de culpa. A mama é instrumento de uma relação erótica com o bebê e com o parceiro.

Ainda falando sobre a sexualidade, disse que começa antes da criança nascer, os parceiros (pais) relacionam-se num determinado dia e local, fantasiam como deveria ser a criança.

Encerrando, diz que os pais devem falar com a criança sem crueldade, para que esta tenha um bom desenvolvimento. Ressalta que as brincadeiras sexuais da criança, como a de brincar de médico, manipular seus órgãos genitais, que são vistas pelos adultos com outros olhos, não tem as maldades que se quer colocar nelas, , interpretadas como perversão, sendo reprimidas pelos adultos.

2ª PALESTRA
TEMA: GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA E SUAS IMPLICAÇÕES
PALESTRANTE: Darci Bonetto

Iniciou afirmando que as conseqüências são tanto mais graves quanto mais jovem for a adolescente, e maior o n° de gestações e de filhos (gemelaridade). As adolescentes não fazem o Pré-Natal por falta de informação sobre a sua importância para a mãe e o bebê, e de condições financeiras para se deslocarem até o serviço de saúde.

As adolescentes de classe social mais alta iniciam o pré-natal mais tardiamente, porque escondem a gravidez, têm distúrbio da alimentação, com subnutrição ou obesidade (ansiedade, sedentarismo), sendo a subnutrição mais freqüente nas adolescentes de classe social mais baixa. A taxa de fecundidade é maior nas adolescentes, quando comparadas com as mulheres adultas. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, 100 mil adolescentes engravidam por ano, sendo 60% delas com idade inferior a 15 anos, e apresentam problemas de saúde durante a gestação, principalmente anemia e toxemia,

As conseqüências da gestação para a adolescente são de ordem física e psicossociais (mãe e familiares).

Dentre as conseqüências de ordem física citou: alteração do crescimento; diminuição do cálcio necessário para o organismo da adolescente que é desviado para o feto; anemia; subnutrição; hipertensão arterial; pré-eclâmpsia; eclâmpsia; morbimortalidade no parto e puerpério (a mortalidade é 30% maior nas adolescentes quando comparadas com mulheres adultas).

A mortalidade de causa gestacional é a 10ª causa de óbitos em adolescentes. É maior nas adolescentes com gestações sucessivas, com intervalo curto entre elas, parto prolongado, hemorragia pós-parto, aborto espontâneo ou não, com infecção, sinéquia uterina, levando a esterilidade e maior número de partos operatórios.

Dentre as conseqüências psicossociais, citou a busca da independência interrompida, perda da autonomia, dependência financeira dos adultos, falta de afeto com impacto na relação mãe-filho, busca de afeto com relacionamentos superficiais, onde prevalece o contacto físico, abandono, manutenção do ciclo de pobreza, profissionalização difícil, dificuldades de emprego, falta de apoio, isolamento social, familiar, risco de separação do parceiro. O sentimento de insegurança é grande, pela ausência do pai na gestação, tensão/depressão e idéias de suicídio, aumento do estresse. Pode haver alteração do estado imunológico, predispondo a mais infecções, e ocorrência de abortos provocados, conduzindo à infertilidade. A gravidez é acompanhada de sentimento de culpa, medo e vergonha.

Nas conseqüências para o filho, citou a mortalidade no primeiro ano de vida, que é maior nos filhos de mães solteiras; RN de baixo peso; aumento das internações; acidentes; morte súbita; abandono (com e sem família), a rua é o lar e a escola, o lixo é a refeição, esmolam para comprar drogas e sobrevivem de teimosos.

PREVENÇÃO:

A melhor forma de prevenção é a informação, conscientizar das conseqüências da gravidez e de ser mãe. Facilitar o acesso a serviços de saúde, pré-natal, trabalho, etc. A adolescente tem que ter um projeto de vida.
Concluiu dizendo que é nosso papel trabalhar na prevenção.
A adolescência é uma explosão de vida, tem criatividade, impulso para o amanhã, sonha com a felicidade.

3ª PALESTRA

TEMA: EXERCENDO A SEXUALIDADE COM AMOR E RESPONSABILIDADE

PALESTRANTE: PAULO CÉSAR PINHO RIBEIRO

Iniciou sua palestra citando dois exemplos de falhas de comunicação. O primeiro de uma criança que pergunta a sua mãe o que é sexo? Ela, surpresa com a pergunta, fornece uma resposta dissimulada e escorregadia do assunto. A criança diz que está com um papel da escola para preencher e quer saber se é masculino ou feminino. Outro exemplo é com Rui Barbosa, personagem da nossa história, conta que um ladrão entrou em sua propriedade e foi pego pelo dono, que lhe fala com vocabulário longe do alcance do ladrão, tentando dizer-lhe que se persistir com aquela intenção terá que chamar a polícia. Por fim, o ladrão diz que pode ou não continuar a pegar as coisas que estava roubando. Com esses exemplos quis dizer que a sexualidade, quando tratada de uma maneira natural, sem dogmas, tabus, fica mais fácil de trabalhar com as crianças e adolescentes.
Discorre sobre a educação sexual, que deve ser mais para o ser, do que para o ter e o fazer, buscando a formação de uma autoconsciência e dos próprios valores, para a troca, a liberdade com responsabilidade, para o amor e para a vida passada, presente e futura, citando Cecília Cardinal de Martin. Usou, também, de várias poesias de Caetano Veloso e Afonso Romano de Santana sobre relacionamento e sexo, para ilustrar como esses poetas tratam esse tema.
Afirma que se deve explicar aos jovens sobre a sexualidade, que necessariamente não implica confundir o sexual com genital. A sexualidade é ampla e difusa, todo o corpo humano é erotizável, não se restringindo ao binômio pênis-vagina. Buscar aliviar as tensões e esclarecer dúvidas com uma abordagem fácil, com conhecimentos sólidos, isenta de idéias preconceituosas, não tendenciosas, sem mitos ou tabus.
A sexualidade não pode ser considerada isoladamente, mas dentro de um contexto global da vida do adolescente, onde se inclui seu relacionamento com os companheiros, sua vida familiar, seu trabalho ou sua atividade escolar.
Identifica alguns problemas na sexualidade do adolescente, como a falta de afeto nas relações, falta de experiência, falta de diálogo entre parceiros, ausência de orgasmo, impotência, falta de proteção anticoncepcional ou uso incorreto dos métodos, relação sexual em locais impróprios, inibição, sentimento de culpa após a relação, e relações precoces para imitar companheiros.
Afirma que palestras dirigidas para jovens, educadores, pais com temas sobre reprodução, sexualidade e comportamento sexual, discussão em grupos com temas de interesse geral, principalmente dos jovens, são fundamentais para difundir esses conhecimentos sobre a sexualidade e a adolescência.
Ressalta a importância de um serviço de saúde habilitado ao atendimento dessa população, com equipe multidisciplinar, de acesso fácil a todos, buscando abordar esses temas com sinceridade, desmistificando os tabus, ganhando a confiança dos adolescentes e de seus familiares.
Na sexualidade, o componente amor pressupõe a vivência de afetividade, auto-estima, respeito e cumplicidade com o parceiro. Conclui dizendo que a sexualidade humana, em uma concepção mais profunda e mais abrangente é sobretudo uma forma de comunicação e, aqui reside o tema amor. Terminou sua palestra passando uma fita com cerca de 3 minutos de duração, em que faz uma declaração de amor a sua filha no seu aniversário de 15 anos, sobre as suas transformações de criança até adolescente.

Encerrada esta fase dos trabalhos passou-se para as perguntas da platéia.
Questionada, a Dra. Luli respondeu que o projeto de gravidez para as adolescentes é de dar sentido a suas vidas, por isso deve-se buscar não vitimizá-las. Elas têm conhecimento do que precisam fazer para evitar essa gravidez e não o fazem.
Dr. Paulo, questionado, responde que os adolescentes privados de sua liberdade são mais difíceis de serem abordados. Relatou que em Minas Gerais faz parte do CEDCA e em parceria com o Ministério da Justiça estão com um Plano de Trabalho para e abordar a saúde do adolescente em conflito com a lei, de uma maneira geral.
Dra. Luli, questionada, disse que uma menina criada sem pai e sem outro contato com pessoa que pudesse substituí-lo, seu complexo de Édipo ocorreria desde que a mãe lhe dissesse com honestidade a verdade de não ter pai e que em algum tempo houve um casal para que a filha veja nela (mãe) a presença da figura paterna Dra. Darci respondeu, ao ser questionada como desenvolver o hábito do uso da camisinha, que nem sempre informação é comunicação. Falar uma vez não implica em entender, é necessário reforço na comunicação, acompanhamento, para que seja fixada melhor a informação e transformá-la em conhecimento e prática. Os adolescentes com atividade sexual são acompanhados mais de perto, reforçando as informações preventivas.
Perguntado sobre sua opinião sobre a adoção de crianças por casais homossexuais, Dra. Luli manifestou-se favorável. Dr. Julio informou sobre uma pesquisa realizada nos EUA, que acompanhou durante dez anos crianças adotadas por casais homossexuais, e os problemas apresentados foram semelhantes aos de crianças adotadas por casais heterossexuais. Dr. Reinaldo fez uso da palavra para levantar uma dúvida sobre a segurança dessas respostas. Acha dez anos pouco tempo de observação, principalmente, para uma criança criada sem as figuras materna e paterna, questiona como serão essas pessoas ao chegarem à idade adulta, deixa na mente dos presentes que ainda é cedo para se tirar conclusões definitivas.
As 17:30 horas encerrou-se os trabalhos.
Eu, Antonio José de Amorim redigi este relatório, que após revisado pelos coordenadores e presidente do Fórum será incluído no relatório final.

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