Intolerância e cidadania

A professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Gama Filho, Renata Rozental Sancovsky é doutoranda em História Social e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP. Participou do III Fórum, em Cuiabá, onde fez conferência sobre a intolerância. Veja a seguir a íntegra da entrevista que concedeu ao SBP Notícias

Dra. Renata, de que maneira a intolerância vem crescendo no ambiente familiar nas últimas décadas?

R: Através de trabalhos desenvolvidos por intelectuais como Elie Wiesel (sobrevivente do Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau) e Tzvetan Todorov, podemos constatar que o primeiro grande impacto da intolerância ocorre ao nível da linguagem. Ou seja, quando se percebe uma ruptura no processo de comunicação possível entre indivíduos ou grupos (no caso da família), desdobrando-se no fenômeno denominado de “subtração da linguagem”, a intolerância se instala exatamente onde ocorre o vazio de diálogo, de circularidade de idéias e informações. Neste ponto, veremos a divisão de poderes dentro do ambiente familiar: aqueles que possuem o domínio da linguagem, que rotulam, que estigmatizam, e aqueles que dela são destituídos. Uma relação desigual de poder sem dúvidas, que pode uma vez incontrolável, desdobrar-se da violência que, segundo Freud era antes pautada no intelecto, passando para o nível físico. A questão passa fundamentalmente pela ausência de diálogo, pela falta - proposital na maioria das vezes - , de “tempo” , formação e desejo, para o compartilhamento e simples escuta de informações/vivências. Nesta situação não há respeito ao menor como sujeito, como ser de existência, consciência e historicidade.

Qual a repercussão disto na vida de crianças e adolescentes?

R: A formação do ser, já afirmou outrora o educador Paulo Freire em “Pedagogia da Autonomia”, passa por um longo e complexo processo cognitivo onde as experiências, emoções, ou “currículo oculto” desses indivíduos devem estar sendo sempre aproveitados e reverenciados pelos que os cercam, no sentido de aproveitar tais vivências para produção de saber (científico ou não) e de aprimoramento das relações humanas. Se não há a construção da chamada “lógica dialógica” teremos a tendência quase inevitável de formarmos indivíduos a-críticos, desistoricizados, cujas curiosidades com relação ao mundo e ao outro serão restritas ao imediatismo da violência, da repetição dos estigmas que sobre eles foram lançados (pelo mundo adulto), e da alienação (drogas, alcoolismo, fugas, suicídios, depressão, criminalidade).

E na sociedade civil, como vem se modificando a intolerância e que repercussões apresenta que influenciem crianças e adolescentes?

R: Na realidade, as modificações são até poucas porque, se formos analisar pelos teóricos da intolerância, este é um fenômeno de longuíssima duração, quase permanente ao cotidiano social ,e se manifesta como afirmei anteriormente, em dois grandes níveis segundo Freud: a intolerância pautada no intelecto/violência simbólica (por vezes mais perversa/astuciosa porque sub-reptícia e lenta) e a intolerância física. As repercussões são tão nítidas quanto a força de um mito que se afirma inegável. Rompe-se, por diversas razões, a cadeia dialógica, por conseguinte, rompe-se a comunicação e compromete-se a formação desses jovens vinculando-os não à atividade educativo-crítica, mas à repetição de padrões comportamentais e valores que receberam de seus familiares ou comunidade – seres a-críticos. Lembremos por exemplo: a Alemanha Nazista e a utilização de jovens e crianças para compor as fileiras de adoração e servidão ao Führer – a chamada Juventude Hitlerista; o aliciamento, por famílias e latifundiários, de jovens e crianças para comporem as fileiras de trabalho semi-escravo em diversas fazendas no interior do país; o envolvimento de jovens e crianças com o tráfico de drogas e na reprodução das cadeias de compra, venda, receptação e consumo; lembremos ainda as atividades de diversos grupos fundamentalistas islâmicos como o Hamas, o Hizbollah e a Jihad Islâmica, no aliciamento de menores para o suicídio em nome da fé e para a reprodução da cultura da morte como salvação. Esses grupos possuem uma rede complexa de atuação, escolas, orfanatos, creches, assistência social às famílias dos suicidas, preenchendo um espaço social que deveria estar sendo ocupado pelo Estado, supostamente enquanto poder ético agregador (lamenta-se constatar que diversos Estados Islâmicos ainda mantêm estreitos envolvimentos com este processo perverso de educação para a intolerância, financiando e treinando os futuros “mártires”, neste ponto, o quadro é quase irreversível)

Quais os principais pontos a serem observados, quando se relaciona intolerância e violência hoje, principalmente quanto às suas repercussões na infância e na Adolescência?

R: A Violência, conforme está se indagando, seria o similar a um estado de ódio social instituído. Ou seja, para Elie Wiesel, por exemplo, quando a intolerância é substituída pelo ódio não há mais volta. Assume o poder de um mito, e como todo mito, adquire feições perenes e deixa a sociedade que a construiu marcada para sempre. É um quadro desalentador, mas que infelizmente, a História tem comprovado. A infância ainda é a melhor fase para o rompimento da cadeia de pensamento e ação intolerantes. Mas é importante destacar que, não só no Brasil, mas em diversos países do mundo ao longo do tempo, a infância permaneceu subjugada às políticas de reprodução do ódio social. Estou querendo dizer que o próprio Estado, os próprios Educadores e Profissionais com acesso à infância, estimularam/financiaram políticas sociais cuja mentalidade repercutiu a intolerância em vários níveis. Veja por exemplo, a formação da mentalidade nazi-fascista na Europa nos anos 30, a cultura da Rússia Soviética a partir de Stalin, e mais polêmica está a política educacional brasileira a partir de Vargas, cuja mitologia política ainda insiste em localizar este líder como abnegado e incondicionalmente devotado ao “povo”. A educação para a preservação do poder e do status-quo ainda é um problema de nossa sociedade.

A sra. tem algum tipo de dado numérico/estatístico que exemplifique suas opiniões?

R: Meus estudos voltam-se para uma análise teórica do fenômeno intolerante, e seus desdobramentos históricos. Existe no Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP, onde sou pesquisadora, diversas metodologias para a análise do discurso racista/intolerante. A partir dessas metodologias de análise, elaboram-se tabelas e gráficos para a apresentação das regularidades discursivas e práticas desse fenômeno. Dou como exemplo os trabalhos da historiadora Anita Novinsky (pioneira nos estudos sobre Inquisição e Marrranos no mundo ibérico) e da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro ( na análise dos documentos dos arquivos policiais e diplomáticos brasileiros da ditadura militar ).

O que a sra. avalia que pode ser feito pelos profissionais que atuam com crianças e adolescentes para mudar esta realidade?

R: Devemos cultivar um pensamento simples mas essencial , em que família e escola, trabalhem no sentido de mostrar ao educando/criança que tudo o que ele vivencia tem valor, tem impactos a sua volta, tem conseqüências, como tudo o que o homem fez e construiu ao longo da História. Neste ponto, reitero que outros profissionais que mantêm contato com as crianças podem em muito contribuir para a formação desses seres críticos, desse processo de conscientização sobre o pertencimento social desses seres, assim a lógica do diálogo e da reciprocidade pode iniciar sua longa trajetória rumo à formação ideal de um cidadão, não um mero repetidor de informações recebidas (via oralidade, via imagem), mas alguém que possui possibilidade de construir o que Paulo Freire denominou de “curiosidade epistemológica”, uma curiosidade que sai do senso-comum, do cotidiano, e aprimora-se, pela intervenção dos profissionais e familiares eticamente comprometidos com uma nova realidade, e transforma-se em plena possibilidade de construção de pensamento, de sabedoria ética.

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