Adeus às armas. Leia artigo do dr. Dioclécio Campos Jr. sobre o desarmamento


01/09/05

Adeus às armas


Dioclécio Campos Júnior

Médico, é professor titular da UnB e presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria

A arma de fogo é a versão moderna dos instrumentos mortíferos concebidos e utilizados pelos bárbaros de todos os tempos. Nada tem de diferente além da maior eficácia para matar. É a tecnologia inventiva do Homo sapiens posta a serviço da morte. Sua única finalidade é eliminar a vida de si mesmo ou a de outrem. Não se presta a qualquer outra função que se possa associar à promoção do bem comum. Muito menos à do bem pessoal. Simboliza a identificação do indivíduo com o que há de pior na mente humana, a vontade de poder exercida em detrimento do direito à vida do outro.

Não importam as razões alegadas para justificar o uso desse instrumento abominável. Todas são indefensáveis à luz dos valores morais e éticos que a sociedade define como pilares sadios da convivência humana. Mesmo a afirmação de que é preciso estar armado para se proteger contra os agressores, perde substância quando se constata que, em caso de assaltos, os mortos são predominantemente os que tentam reagir com a arma.

Matar para não ser morto não é a melhor nem a mais segura forma de sobreviver no Brasil de hoje. Adquirir uma arma de fogo para se prevenir contra a violência é investimento sem nenhum benefício. Só tem custo. Não traz nenhuma solução, só gera problemas. Não evita a morte, aproxima-a ainda mais do cidadão. Não garante segurança à família, aumenta sua exposição aos riscos de vida. Não intimida o agressor, encoraja-o.

A existência do homem civilizado não pode ser entendida como duelo interminável entre mocinhos e bandidos treinados para atirar. Apostar nesse mecanismo primitivo de equilíbrio da sociedade é construir auto-engano, freqüentemente fatal. Só no cinema os mocinhos vencem. No mundo real, os bandidos são muito mais versados no manejo do revólver. São rápidos no gatilho, dominam melhor a tecnologia da arma de fogo e matam mais facilmente seus contendores.

As nações que atribuem maior valor à vida humana são as desarmadas. Nelas as desigualdades sociais são pequenas, a educação é prioridade, a saúde é verdadeiramente um direito e a economia não passa de atividade meio. A violência é circunstancial, não estrutural. Não se compram direitos nem se vendem privilégios. Os cidadãos se respeitam pelo princípio da alteridade que rege a ética da convivência. São as nações que mais se aproximam do conceito de civilização, entendida como a ordem social a promover a criação cultural. Seus jovens não se desencantam. Têm perspectivas concretas de realizar sonhos, não banalizam a vida, estão motivados para os desafios e riquezas da existência no plano coletivo.

Onde faltam essas condições sociais a vida perde valor, a juventude se anula no vazio existencial, a cidadania se desintegra. E, quando se começa a acreditar na solução da arma de fogo para resolver as questões de segurança pessoal, a sociedade está gravemente enferma. Deixou de pensar, já não sabe refletir. Perdeu de vista a dimensão social da violência e a profundidade dos fatores causais que a fazem aumentar e a assumir formas progressivamente brutais. Quando o revólver se torna sinônimo de utilidade doméstica e símbolo de ousadia defensiva, a morte ronda o espetáculo do cotidiano e faz vítimas em escala geométrica. Viver nesse tipo de sociedade é aventura de altíssimo risco.

As estatísticas brasileiras referentes à mortalidade por armas de fogo são aterradoras. Mostram o extenso enraizamento da violência nas entranhas do nosso tecido social. Em números absolutos, somos hoje o país com o maior número de mortes provocadas por essa causa. A grande maioria resulta de homicídios e atinge predominantemente os jovens de 15 a 24 anos. Só no ano de 2003, as armas de fogo mataram 39.284 cidadãos, ou seja, 107 por dia, conforme apurou Júlio Jacobo, da Unesco. Em 2002, do total de adolescentes que morreram no país entre 15 e 19 anos de idade, 39,1% foram vítimas de arma de fogo, segundo os dados do sistema de informação de mortalidade do Ministério da Saúde. Em algumas capitais, essa modalidade de morte violenta foi responsável por mais da metade dos óbitos ocorridos na mesma faixa etária.

Não há como fugir à evidência alarmante dos números. O país tomou o caminho errado para construir sua história. Optou pela barbárie ao invés da civilização. Se não mudar de rota, desaparecerá. A produção e a comercialização de armas de fogo são eticamente responsáveis por essa tragédia. Têm de acabar. O plebiscito de outubro é a chance para darmos adeus às armas. Ou para sucumbirmos todos.

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